Imagens ilustrativas. As fotos deste guia são ilustrações feitas a partir do lugar real, não fotografias, e podem ter diferenças em relação a ele.

Antártida

História e exploração

Dos mapas que imaginavam uma terra no sul ao Ano Geofísico Internacional: como o último continente foi avistado, explorado e transformado num lugar de ciência.

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A Terra Australis dos mapas antigos

Muito antes de alguém vê-la, a Antártida já existia nos mapas. Os geógrafos gregos imaginavam uma terra no sul que equilibrasse as terras conhecidas do norte, e a ideia atravessou a Idade Média com o nome latino de Terra Australis Incognita, a terra austral desconhecida.

No século XVI, cartógrafos como Gerardus Mercator e Abraham Ortelius desenharam esse continente imaginário enorme, ocupando quase todo o sul do mapa e chegando perto da América do Sul e da Nova Guiné. O atlas de Ortelius, de 1570, é um dos exemplos mais conhecidos.

A cada viagem que passava mais ao sul sem encontrar terra, o continente dos mapas encolhia. A Terra do Fogo, que alguns achavam ser a ponta dele, mostrou-se uma ilha quando o holandês Willem Schouten contornou o cabo Horn, em 1616.

O nome vem do grego antarktikós, "oposto ao Ártico". O Ártico, por sua vez, vem de árktos, urso: é a região sob a constelação da Ursa, no céu do norte.

James Cook e o Círculo Polar Antártico

Em 17 de janeiro de 1773, os navios Resolution e Adventure, do britânico James Cook, cruzaram pela primeira vez o Círculo Polar Antártico, a cerca de 66,5 graus de latitude sul. Cook voltou a cruzá-lo mais duas vezes na mesma viagem, que durou de 1772 a 1775.

Ele chegou a 71°10′ sul, o ponto mais ao sul alcançado até então, e foi barrado pelo gelo marinho. Calcula-se que tenha passado a cerca de 240 quilômetros do continente sem vê-lo.

Cook concluiu que, se houvesse terra mais ao sul, ela estaria coberta de gelo e não teria utilidade. O relato dele sobre a quantidade de focas nas ilhas do sul, publicado em 1777, atraiu os caçadores que, décadas depois, chegariam às costas antárticas.

1820: os primeiros a ver o continente

O continente foi avistado pela primeira vez em 1820, por três expedições diferentes, com dias ou meses de diferença. No fim de janeiro, a expedição russa de Fabian von Bellingshausen e Mikhail Lazarev chegou a cerca de 32 quilômetros da costa e registrou um campo de gelo que se identifica com a plataforma de gelo Fimbul, na Terra da Rainha Maud.

Em 30 de janeiro de 1820, o oficial britânico Edward Bransfield, com o capitão William Smith, avistou a península Trinity, a ponta norte da Península Antártica. Em novembro do mesmo ano, o caçador de focas americano Nathaniel Palmer, a bordo do pequeno Hero, também viu a Península.

Quem viu primeiro ainda é discutido entre historiadores, porque os diários de bordo descrevem gelo e montanhas de formas diferentes. Os três nomes ficaram no mapa: o mar de Bellingshausen, o estreito de Bransfield e a Terra de Palmer.

A primeira pessoa a pisar no continente também é incerta. O caçador de focas americano John Davis disse ter desembarcado na Península em fevereiro de 1821, mas o registro é contestado.

Caçadores de focas e baleeiros

Logo depois dos avistamentos, dezenas de navios foram às ilhas Shetland do Sul atrás do lobo-marinho-antártico, cuja pele tinha alto valor na Europa, nos Estados Unidos e na China. Em poucas temporadas da década de 1820, as colônias foram quase eliminadas.

No começo do século XX veio a caça à baleia. Em 1904, o norueguês Carl Anton Larsen abriu em Grytviken, na ilha Geórgia do Sul, a primeira estação baleeira em terra do oceano Austral; depois vieram outras estações e os navios-fábrica, que processavam as baleias em alto-mar.

As baleias-azuis, as baleias-fin e as jubartes do oceano Austral foram reduzidas a uma pequena fração do que eram. A caça comercial em grande escala só parou com a moratória aprovada pela Comissão Baleeira Internacional em 1982, e o oceano Austral passou a ser santuário de baleias em 1994.

Restos desse período ficam em lugares como a ilha Deception, nas Shetland do Sul, onde a baía das Baleeiras guarda tanques e construções de uma antiga estação. São sítios históricos protegidos pelo Tratado da Antártida.

A era heroica e os primeiros invernos

Os historiadores chamam de era heroica o período que vai do fim do século XIX ao começo da década de 1920, quando as expedições chegavam em navios de madeira, com cães, trenós e quase nenhuma comunicação com o resto do mundo.

Em 1898, o navio belga Belgica, de Adrien de Gerlache, ficou preso no gelo do mar de Bellingshausen, e a tripulação passou o primeiro inverno na região antártica. A bordo estavam o jovem norueguês Roald Amundsen e o médico americano Frederick Cook.

Em 1899, a expedição do norueguês Carsten Borchgrevink, financiada por britânicos, foi a primeira a passar o inverno no continente, em cabanas no cabo Adare, na costa do mar de Ross. As cabanas continuam de pé e são protegidas como sítio histórico.

Seguiram-se as expedições de Robert Falcon Scott no Discovery (1901–1904), a de Ernest Shackleton no Nimrod (1907–1909), que chegou a 88°23′ sul, a cerca de 180 quilômetros do Polo, e a do australiano Douglas Mawson (1911–1914), que explorou a costa ao sul da Austrália.

Amundsen e Scott: a corrida ao Polo Sul

Em 1911, duas expedições tentaram chegar ao Polo Sul. O norueguês Roald Amundsen partiu da baía das Baleias, na plataforma de gelo Ross, com quatro companheiros e trenós puxados por dezenas de cães. O britânico Robert Falcon Scott partiu do cabo Evans, na ilha de Ross, com pôneis, trenós motorizados e, na parte final, homens puxando os trenós.

Amundsen chegou ao Polo em 14 de dezembro de 1911 e deixou ali uma barraca, que chamou de Polheim, com uma carta para Scott. Voltou à base sem perder nenhum homem.

Scott e mais quatro homens chegaram em 17 de janeiro de 1912 e encontraram a barraca norueguesa. Na volta, os cinco morreram de frio, fome e exaustão; os três últimos, Scott, Edward Wilson e Henry Bowers, a cerca de 18 quilômetros de um depósito de mantimentos. A barraca com os corpos e os diários foi encontrada em novembro de 1912.

A estação americana que funciona no Polo desde 1956 leva o nome dos dois, Amundsen-Scott, como se vê em Ciência e bases.

Shackleton e o Endurance

Em 1914, Ernest Shackleton partiu com a ideia de atravessar a Antártida a pé, do mar de Weddell ao mar de Ross, passando pelo Polo. Em janeiro de 1915, o navio Endurance ficou preso no gelo marinho do mar de Weddell e passou meses à deriva, até ser esmagado e afundar, em novembro de 1915.

Os 28 homens acamparam sobre o gelo e, quando ele começou a se partir, seguiram em três botes até a ilha Elefante, nas Shetland do Sul. De lá, Shackleton e cinco companheiros cruzaram cerca de 1.300 quilômetros de mar no bote James Caird até a Geórgia do Sul e atravessaram a pé as montanhas da ilha até a estação baleeira de Stromness.

Os 22 homens que tinham ficado na ilha Elefante foram resgatados em agosto de 1916 pelo rebocador chileno Yelcho, comandado por Luis Pardo. Ninguém do Endurance morreu.

O naufrágio foi encontrado em 5 de março de 2022 pela expedição Endurance22, a 3.008 metros de profundidade, a pouco mais de 4 milhas náuticas ao sul da posição anotada pelo capitão Frank Worsley. O casco está bem conservado e é protegido como sítio histórico do Tratado da Antártida: pode ser filmado e estudado, mas não tocado.

Aviões, tratores e a primeira travessia

Depois da Primeira Guerra Mundial, o avião mudou a exploração. Em 29 de novembro de 1929, o americano Richard Byrd sobrevoou o Polo Sul, e nas décadas seguintes as fotos aéreas mapearam costas e montanhas que nenhum trenó tinha alcançado.

A presença permanente começou cedo. A base argentina Orcadas, nas ilhas Órcadas do Sul, funciona sem interrupção desde fevereiro de 1904 e é a mais antiga ao sul do paralelo 60. Durante a Segunda Guerra Mundial e logo depois, vários países instalaram bases na Península e nas ilhas, e a operação americana Highjump, em 1946 e 1947, levou à costa milhares de homens, navios e aviões.

A primeira travessia por terra foi feita pela Expedição Transantártica da Commonwealth, liderada pelo britânico Vivian Fuchs, que saiu do mar de Weddell, passou pelo Polo e chegou ao mar de Ross em 2 de março de 1958, depois de 99 dias. O neozelandês Edmund Hillary, que vinha do lado oposto montando depósitos de combustível, chegou ao Polo com tratores agrícolas em 4 de janeiro de 1958.

O Ano Geofísico Internacional (1957–1958)

Entre 1º de julho de 1957 e 31 de dezembro de 1958, cientistas de 67 países participaram do Ano Geofísico Internacional, um esforço comum para estudar a Terra, a atmosfera e o Sol. A Antártida foi um dos focos principais.

Doze países montaram ou ampliaram estações no continente e nas ilhas. Entre elas estavam a americana no Polo Sul, a soviética Vostok, no planalto, e a britânica Halley, na plataforma de gelo Brunt, onde décadas depois se descobriu o buraco na camada de ozônio, como se vê em A Antártida e o clima da Terra.

A cooperação daqueles 18 meses, em plena Guerra Fria, mostrou que países rivais podiam trabalhar lado a lado no gelo. Os mesmos doze países negociaram o tratado assinado em 1959, que é o assunto de O Tratado da Antártida.

Para continuar a coordenação, foi criado em 1958 o Comitê Científico de Pesquisa Antártica, o SCAR, que reúne os cientistas que trabalham no continente.

Perguntas frequentes

Quem descobriu a Antártida?

O continente foi avistado pela primeira vez em 1820, quase ao mesmo tempo, pela expedição russa de Bellingshausen e Lazarev, pelo britânico Edward Bransfield e pelo americano Nathaniel Palmer. Quem viu primeiro ainda é discutido.

Quem chegou primeiro ao Polo Sul?

O norueguês Roald Amundsen e quatro companheiros, em 14 de dezembro de 1911. O britânico Robert Falcon Scott chegou 34 dias depois, em 17 de janeiro de 1912.

O que aconteceu com Scott no Polo Sul?

Scott e os quatro homens que chegaram com ele ao Polo morreram na volta, de frio, fome e exaustão, entre fevereiro e março de 1912. A barraca com os diários foi encontrada em novembro de 1912.

Onde foi encontrado o navio Endurance, de Shackleton?

No fundo do mar de Weddell, a 3.008 metros de profundidade, em 5 de março de 2022, pouco mais de 4 milhas náuticas ao sul do ponto anotado em 1915. É sítio histórico protegido e não pode ser tocado.

Os homens do Endurance sobreviveram?

Sim. Os 28 homens sobreviveram: acamparam no gelo, chegaram em botes à ilha Elefante e foram resgatados em agosto de 1916, depois que Shackleton buscou ajuda na Geórgia do Sul.

O que era a Terra Australis?

Um continente imaginário que geógrafos e cartógrafos desenhavam no sul do mundo desde a Antiguidade. As viagens dos séculos XVI a XVIII mostraram que ele era bem menor e ficava mais ao sul do que os mapas indicavam.

Quem cruzou primeiro o Círculo Polar Antártico?

O britânico James Cook, com os navios Resolution e Adventure, em 17 de janeiro de 1773. Ele não chegou a ver o continente.

Quem passou o primeiro inverno na Antártida?

A tripulação do navio belga Belgica, preso no gelo em 1898, passou o primeiro inverno na região. O primeiro inverno em terra, no continente, foi o da expedição de Carsten Borchgrevink, no cabo Adare, em 1899.

Quando a Antártida foi atravessada por terra pela primeira vez?

Entre novembro de 1957 e março de 1958, pela expedição de Vivian Fuchs, que foi do mar de Weddell ao mar de Ross passando pelo Polo Sul, em 99 dias.

O que foi o Ano Geofísico Internacional?

Um programa científico de 1957 e 1958, com cientistas de 67 países, para estudar a Terra e o espaço. Na Antártida, doze países montaram estações, e a cooperação levou ao Tratado da Antártida de 1959.