Imagens ilustrativas. As fotos deste guia são ilustrações feitas a partir do lugar real, não fotografias, e podem ter diferenças em relação a ele.

Antártida

O Brasil na Antártida

Como o Brasil entrou no Tratado da Antártida, montou uma estação na ilha Rei George, reconstruiu-a depois do incêndio de 2012 e por que o gelo do sul pesa no clima do país.

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Por que o Brasil está na Antártida

As massas de ar polar que trazem as frentes frias ao Sul e ao Sudeste do Brasil, e às vezes a friagem até a Amazônia, formam-se nas latitudes altas do hemisfério sul, sobre o oceano em volta da Antártida. Entender o que acontece lá ajuda a entender o tempo e o clima no país.

O oceano também liga as duas regiões. Águas frias que vêm do oceano Austral correm pelo fundo do Atlântico Sul, e o krill antártico alimenta baleias que costumam migrar para a costa brasileira no inverno, como as jubartes e as baleias-francas.

Há ainda a razão diplomática: só os países com pesquisa científica substancial no continente decidem sobre ele no Tratado da Antártida. Manter a pesquisa é o que garante ao Brasil esse lugar, como se vê em O Tratado da Antártida.

A adesão ao Tratado e o PROANTAR

O Brasil não estava entre os doze países que assinaram o Tratado da Antártida em 1959. Aderiu em 16 de maio de 1975, primeiro como Parte não consultiva, sem poder de decisão.

O Programa Antártico Brasileiro, o PROANTAR, foi criado em 12 de janeiro de 1982 pelo decreto 86.830. É conduzido pela Comissão Interministerial para os Recursos do Mar, a CIRM, coordenada pela Marinha do Brasil, que cuida da logística; a pesquisa é financiada e avaliada com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e o CNPq.

A primeira expedição, a Operação Antártica I, foi no verão de 1982–1983, com o navio de apoio oceanográfico Barão de Teffé, da Marinha, e o navio oceanográfico Professor Wladimir Besnard, da Universidade de São Paulo. Os dois chegaram à Antártida em janeiro de 1983 e ajudaram a escolher o lugar da futura estação.

Com essa atividade científica, o Brasil foi aceito como Parte consultiva em setembro de 1983, com direito a voz e voto. Desde então, a cada ano uma Operação Antártica, a OPERANTAR, sai do Rio de Janeiro, em geral em outubro, e volta em abril.

A Estação Antártica Comandante Ferraz

A Estação Antártica Comandante Ferraz foi inaugurada em 6 de fevereiro de 1984 na península Keller, na baía do Almirantado, ilha Rei George, nas Shetland do Sul, a cerca de 62 graus sul. Era pequena, para 12 pessoas, e passou a ser ocupada o ano todo a partir de 1986.

O nome homenageia o capitão de fragata Luiz Antônio de Carvalho Ferraz, oficial hidrógrafo da Marinha, um dos pioneiros da presença brasileira no continente, que esteve na Antártida a bordo de navios britânicos antes de o país ter programa próprio.

A estação fica dentro da Área Antártica Especialmente Gerenciada da baía do Almirantado, proposta pelo Brasil e pela Polônia, que mantém a estação Arctowski no outro lado da baía. Ali, as atividades de pesquisa, logística e visitação seguem um plano comum.

O incêndio de 2012

Na madrugada de 25 de fevereiro de 2012, um incêndio que começou na praça de máquinas, onde ficavam os geradores, destruiu cerca de 70% da estação. Dois militares da Marinha morreram tentando combater o fogo, o suboficial Carlos Alberto Vieira Figueiredo e o primeiro-sargento Roberto Lopes dos Santos, promovidos depois a segundos-tenentes.

Os outros ocupantes foram retirados com apoio das estações vizinhas e de aviões do Chile, e um militar ferido foi levado à base chilena Frei.

Em fevereiro de 2013 foram montados na península Keller os Módulos Antárticos Emergenciais, que serviram de estação provisória para o grupo-base de militares e para parte das pesquisas. Os navios e os acampamentos de verão mantiveram os outros projetos enquanto a Marinha preparava a reconstrução.

A nova estação, de 2020

A nova Estação Comandante Ferraz foi inaugurada em 15 de janeiro de 2020, no mesmo lugar da antiga. Tem cerca de 4.500 metros quadrados de área, quase o dobro da anterior, 17 laboratórios previstos no projeto e capacidade para 64 pessoas.

O projeto arquitetônico, do escritório Estúdio 41, de Curitiba, venceu em 2013 um concurso do Instituto de Arquitetos do Brasil com a Marinha. A obra, contratada à empresa chinesa CEIEC, começou em 2016 e só podia avançar nos poucos meses de verão, quando os navios chegam à baía.

A estação foi dividida em blocos separados, para que um incêndio não passe de um bloco a outro, e as divisões resistem ao fogo por cerca de duas horas, tempo para combater as chamas e retirar as pessoas.

Um grupo-base de militares da Marinha fica na estação o ano todo, cuidando da operação e da manutenção. Os pesquisadores chegam principalmente no verão, quando os navios e os aviões fazem o revezamento.

O Criosfera 1 e a pesquisa no interior

Em 12 de janeiro de 2012, uma expedição do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera instalou o Criosfera 1, o primeiro módulo científico brasileiro no interior do continente, a 84° sul e 79,5° oeste, no manto de gelo da Antártida Ocidental. Fica a cerca de 670 quilômetros do Polo Sul e 2.500 quilômetros ao sul de Ferraz.

O módulo funciona sem ninguém, com energia de painéis solares e pequenas turbinas de vento, e manda por satélite dados de temperatura, vento, umidade e da composição do ar. É uma ação conjunta da UFRGS, da UERJ e do INPE.

O INCT da Criosfera, criado em 2008 e coordenado pela UFRGS com a FURG, reúne pesquisadores que estudam o gelo, o oceano Austral e a ligação deles com o clima da América do Sul. Equipes brasileiras já fizeram travessias de centenas de quilômetros no manto de gelo e perfurações para retirar testemunhos de gelo.

O que os brasileiros pesquisam

As pesquisas do PROANTAR cobrem a atmosfera e o clima, o oceano Austral, o gelo, a vida marinha e terrestre, a geologia e a saúde humana no frio. Muitas partem de Ferraz, dos navios e de acampamentos montados no verão nas ilhas e na Península.

Na baía do Almirantado, décadas de medições sobre o tempo, a água e os animais permitem acompanhar as mudanças da região. Pesquisadores da Fiocruz e de universidades estudam fungos e bactérias que só existem ali, em busca de substâncias que possam ter uso em medicamentos.

O Brasil é membro do SCAR, o comitê científico internacional da Antártida, e o glaciólogo Jefferson Cardia Simões, da UFRGS, foi vice-presidente do SCAR de 2016 a 2024.

Os resultados ajudam a entender as frentes frias, as ressacas e as chuvas no Sul do Brasil e mostram como as mudanças tratadas em A Antártida e o clima da Terra chegam ao país.

Perguntas frequentes

O Brasil tem base na Antártida?

Sim. A Estação Antártica Comandante Ferraz, da Marinha do Brasil, na ilha Rei George, funciona desde 1984. Há também o módulo automático Criosfera 1, no interior do continente.

Onde fica a Estação Comandante Ferraz?

Na península Keller, na baía do Almirantado, ilha Rei George, no arquipélago das Shetland do Sul, perto da ponta norte da Península Antártica, a cerca de 62 graus sul.

Quando o Brasil entrou no Tratado da Antártida?

Em 16 de maio de 1975. Em setembro de 1983, depois da primeira expedição científica, passou a Parte consultiva, com direito de decidir sobre o continente.

O que é o PROANTAR?

É o Programa Antártico Brasileiro, criado em 12 de janeiro de 1982. A Marinha cuida da logística, e a pesquisa é feita por universidades e institutos de todo o país.

O que aconteceu com a estação brasileira na Antártida em 2012?

Em 25 de fevereiro de 2012, um incêndio destruiu cerca de 70% da Estação Comandante Ferraz, e dois militares da Marinha morreram combatendo o fogo. A nova estação foi inaugurada em 15 de janeiro de 2020.

Quantas pessoas cabem na nova Estação Comandante Ferraz?

Até 64 pessoas, em cerca de 4.500 metros quadrados, quase o dobro da área da estação antiga.

Quais navios o Brasil usa na Antártida?

O navio de apoio oceanográfico Ary Rongel, o Gigante Vermelho, e o navio polar Almirante Maximiano, ambos da Marinha do Brasil.

O que é o Criosfera 1?

É um módulo científico brasileiro automático, instalado em 2012 a 84° sul, no manto de gelo da Antártida Ocidental, que mede o tempo e o ar e envia os dados por satélite.

O Brasil reivindica território na Antártida?

Não. O Brasil não tem reivindicação territorial e participa do continente pelas regras do Tratado da Antártida, como Parte consultiva.

Por que a Antártida influencia o clima do Brasil?

Porque as massas de ar polar que trazem as frentes frias se formam nas latitudes altas do sul, e as águas e os ventos do oceano Austral interferem no Atlântico Sul e no tempo do país.