Imagens ilustrativas. As fotos deste guia são ilustrações feitas a partir do lugar real, não fotografias, e podem ter diferenças em relação a ele.

Antártida

O gelo da Antártida

Como se forma e se move a maior massa de gelo da Terra, o que ela guarda do clima de 1 milhão de anos atrás e por que o mar em volta congela e derrete todo ano.

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A calota de gelo

A calota da Antártida é a maior massa de gelo da Terra. Ela nasce da neve: em lugares onde quase nunca derrete, cada camada que cai é coberta pela seguinte e, com o peso, vira gelo. No planalto, isso leva séculos ou milênios.

O gelo não fica parado. Pelo próprio peso, ele escoa devagar do centro, onde é mais alto, para a costa. No interior, anda poucos metros por ano; nas correntes de gelo e geleiras perto do mar, pode passar de 1 quilômetro por ano.

São duas calotas unidas: a da Antártida Oriental, a maior e mais antiga, formada há cerca de 34 milhões de anos, e a da Antártida Ocidental, menor e apoiada em boa parte sobre rocha abaixo do nível do mar. A Península tem geleiras próprias, que descem das montanhas.

Espessura e volume

Para saber o tamanho do gelo, os cientistas medem a espessura com radar, a partir de aviões e veículos sobre a neve, e com satélites que medem a altura da superfície. O mapeamento Bedmap3, coordenado pelo British Antarctic Survey e publicado em 2025, reuniu medições de mais de seis décadas.

Segundo o Bedmap3, a calota tem cerca de 27,17 milhões de km³ de gelo. A espessura média é de 1.948 metros contando as plataformas flutuantes, e de 2.148 metros só sobre a terra. O ponto mais grosso medido, com 4.757 metros, fica num vale sem nome da Terra de Wilkes.

O peso de tanto gelo afunda a rocha do continente e até muda a forma do planeta: a Antártida puxa um pouco a água do mar para perto de si pela gravidade, efeito que os satélites também medem.

O gelo e o nível do mar

Se toda a calota derretesse, o nível médio do mar subiria cerca de 58 metros, segundo o Bedmap3. A maior parte dessa água está na Antártida Oriental. Só a calota da Antártida Ocidental equivaleria a mais de 3 metros.

O gelo que já flutua, nas plataformas, quase não muda o nível do mar quando derrete, como um cubo de gelo num copo. O que conta é o gelo apoiado na terra que escorre para o oceano. Ainda assim, as plataformas importam: elas seguram as geleiras atrás de si.

A Antártida perde gelo há décadas, sobretudo na Antártida Ocidental e na Península. Os números da perda, medidos por satélite, e o que eles significam para o mar estão em A Antártida e o clima da Terra.

As plataformas de gelo

Plataformas de gelo são as partes da calota que avançam sobre o mar e flutuam, ainda ligadas ao continente. Cercam cerca de metade da costa antártica. A frente costuma formar um paredão de 15 a 50 metros acima da água, com centenas de metros submersos.

A maior é a plataforma de Ross, com cerca de 473 mil km², área próxima à da França. A segunda é a de Ronne-Filchner, no mar de Weddell, com cerca de 422 mil km². As duas somam perto de dois terços da área de todas as plataformas.

Na Península, a plataforma Larsen perdeu partes inteiras. A Larsen A se desfez em 1995. A Larsen B perdeu cerca de 3.250 km² em pouco mais de um mês, entre janeiro e março de 2002, depois de verões quentes que encheram a superfície de lagos de degelo. Em 2017, a Larsen C soltou o iceberg A68, com cerca de 5.800 km².

Depois da queda da Larsen B, as geleiras que ela segurava passaram a correr várias vezes mais rápido para o mar. Foi a prova de que as plataformas funcionam como uma rolha para o gelo do continente.

As geleiras Thwaites e Pine Island

No mar de Amundsen, na Antártida Ocidental, ficam duas das geleiras que mais perdem gelo no mundo: a Thwaites e a Pine Island. A Thwaites é a geleira mais larga da Terra, com cerca de 120 quilômetros de frente, e drena uma área do tamanho da ilha da Grã-Bretanha.

A Thwaites guarda gelo suficiente para subir o nível do mar em cerca de 65 centímetros. Sua perda responde por cerca de 4% da subida anual do nível do mar, segundo a colaboração internacional que a estuda desde 2018.

O problema está embaixo: água do oceano um pouco mais quente, vinda das profundezas, entra sob a geleira e derrete o gelo por baixo, onde ele se apoia na rocha. Em 2025, essa colaboração concluiu que um colapso rápido nas próximas décadas é menos provável do que se temia, mas que o recuo deve continuar e se acelerar ao longo deste século e do próximo.

Os icebergs

Icebergs são pedaços que se soltam das geleiras e das plataformas. Os da Antártida costumam ser tabulares: planos em cima, com paredes retas, às vezes com dezenas ou centenas de quilômetros de comprimento. Cerca de nove décimos do volume ficam embaixo da água.

Os grandes recebem nome do Centro Nacional do Gelo dos Estados Unidos: uma letra para o quadrante do continente onde nasceram, de A a D, e um número. O A23a, por exemplo, soltou-se da plataforma Filchner em 1986, passou mais de 30 anos encalhado no fundo do mar de Weddell e voltou a derivar a partir de 2020.

Levados pelas correntes, os icebergs vão para o norte e se desfazem aos poucos, às vezes depois de anos. Enquanto derretem, soltam ferro e outros nutrientes que alimentam a vida no mar.

Os lagos sob o gelo

Sob a calota existe água líquida. O calor que sobe do interior da Terra, a pressão do gelo e o isolamento da própria camada de gelo mantêm a base derretida em vários pontos. Um levantamento de 2022 contou 675 lagos sob o gelo da Antártida.

O maior é o lago Vostok, sob a estação russa de mesmo nome, com cerca de 12.500 km² e coberto por perto de 4 quilômetros de gelo. Em 2012, uma sondagem russa chegou à superfície da água depois de décadas de perfuração.

Muitos lagos estão ligados por rios sob o gelo e enchem e esvaziam com o tempo. Em 2013, uma equipe americana perfurou o lago Whillans, na Antártida Ocidental, e encontrou micróbios vivendo no escuro, sem luz do sol, como se vê em A vida na Antártida.

Os testemunhos de gelo e o clima do passado

Cada camada de neve que vira gelo prende bolhas de ar da época em que caiu. Perfurando a calota, os cientistas tiram cilindros de gelo, os testemunhos, e leem neles a temperatura, a poeira e os gases da atmosfera de milhares de anos atrás.

O testemunho do projeto europeu EPICA, no Domo C, perfurado até 2004, cobriu 800 mil anos e mostrou que o gás carbônico e a temperatura subiram e desceram juntos ao longo das eras glaciais. Em janeiro de 2025, o projeto Beyond EPICA chegou à rocha a 2.800 metros no Little Dome C, perto da estação Concordia, com gelo de pelo menos 1,2 milhão de anos.

Esse gelo mais antigo cobre a época em que os ciclos das glaciações mudaram de ritmo, passando de cerca de 41 mil para cerca de 100 mil anos, há entre 1,2 milhão e 900 mil anos. Entender essa mudança é um dos objetivos da pesquisa.

O gelo marinho e o ciclo do ano

Diferente da calota, o gelo marinho é água do mar congelada. Ele se forma no outono e no inverno em volta do continente e derrete quase todo no verão. Costuma ter cerca de 1 metro de espessura, bem menos que o gelo da terra.

É uma das maiores mudanças de estação do planeta. O gelo marinho chega ao máximo em setembro ou outubro, com cerca de 18,7 milhões de km² na média de 1981 a 2010, e ao mínimo em fevereiro ou março, com cerca de 2,8 milhões. Segundo o NSIDC, em 2025 o máximo foi de 17,81 milhões de km² e o mínimo de 1,98 milhão.

Até 2015, a extensão do gelo marinho antártico variava de ano para ano, com leve alta e o recorde de máximo em 2014. Desde 2016, ficou quase sempre abaixo da média, com os recordes de baixa em 2023. O gelo marinho importa para a vida: é onde o pinguim-imperador cria os filhotes e onde crescem as algas que alimentam o krill.

Perguntas frequentes

Quanto gelo existe na Antártida?

Cerca de 27 milhões de km³, segundo o mapeamento Bedmap3, de 2025. É a maior massa de gelo da Terra.

Qual é a espessura do gelo da Antártida?

Em média, cerca de 1,9 quilômetro contando as plataformas flutuantes, e 2,1 quilômetros só sobre a terra. O ponto mais grosso medido tem 4.757 metros.

Quanto o mar subiria se o gelo da Antártida derretesse?

Cerca de 58 metros, se toda a calota derretesse. Não é algo que aconteça em poucos séculos; o que preocupa é a perda parcial, sobretudo na Antártida Ocidental.

O que é uma plataforma de gelo?

É a parte da calota que avança sobre o mar e flutua, ainda presa ao continente. A maior é a de Ross, com cerca de 473 mil km².

O que aconteceu com a plataforma Larsen B?

Ela se desfez entre janeiro e março de 2002, perdendo cerca de 3.250 km² em pouco mais de um mês, depois de verões quentes que encheram a superfície de lagos de degelo.

Por que a geleira Thwaites é chamada de geleira do juízo final?

Porque guarda gelo para subir o mar em cerca de 65 centímetros e perde gelo depressa, derretida por baixo pela água do oceano. O apelido é da imprensa; os cientistas preferem falar em risco e em ritmo de recuo.

Como os icebergs recebem nome?

Os grandes icebergs antárticos ganham uma letra, de A a D, conforme o quadrante do continente onde nasceram, e um número, dados pelo Centro Nacional do Gelo dos Estados Unidos.

O que é o lago Vostok?

O maior dos 675 lagos conhecidos sob o gelo da Antártida, com cerca de 12.500 km², coberto por perto de 4 quilômetros de gelo.

Qual é o gelo mais antigo já retirado da Antártida?

O do projeto Beyond EPICA, perfurado até a rocha em janeiro de 2025 no Little Dome C, com pelo menos 1,2 milhão de anos.

Qual a diferença entre gelo marinho e calota de gelo?

O gelo marinho é água do mar congelada, com cerca de 1 metro de espessura, que se forma no inverno e derrete no verão. A calota é gelo de neve acumulada, sobre a terra, com quilômetros de espessura.

O gelo marinho da Antártida está diminuindo?

Desde 2016 a extensão tem ficado quase sempre abaixo da média de 1981 a 2010, com os recordes de baixa em 2023, segundo o NSIDC. Antes disso, variava de ano para ano, com leve alta até o recorde de máximo em 2014.